Sertãopunk: o que é?
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| Balé Folclórico da Bahia |
As pessoas me perguntam o que é "sertãopunk". Uma pergunta justa, uma vez que há algumas obras se apropriando do termo, mas sem ter, a meu ver, as características necessárias para se denominar uma obra sertãopunk.
Faz um bom depois desde que editei Sertãopunk – Histórias de um Nordeste do Amanhã, e acreditei que meu papel atuante no movimento sertãopunk estava finalizado. Não havia mais histórias — e nem interesse — em continuar, uma vez que eu pensei que o gênero já estava suficiente consolidado e, a meu ver, o movimento tinha perdido seu propósito.
Dos três criadores, sou o que tem um pensamento anarquista para o sertãopunk.
Não se faz movimentos de resistência com conciliação.
Não se cria um gênero literário buscando agradar a todo mundo.
É um processo progressista e revolucionário.
Quando o capitalismo se apropria, perde-se o sentido.
Foi o que aconteceu com o sertãopunk, em algum momento, e o que me fez desistir de continuar.
Eu sempre tive uma visão mais radical para o sertãopunk, e talvez isso fique evidente na forma que as histórias que escrevi são apresentadas: um Brasil rachado pelas desavenças políticas, sociais e culturais, no qual a região nordestina começa a destacar por prosperar, enquanto o restante do antigo país desmorona. Neste cenário de ebulição, uma guerra foi travada, e desta guerra emergiram as velhas lendas de nosso folclore, seres antes tidos como imaginários, buscando espaço num futuro diferente.
O sertãopunk imaginado por mim se afunda e se aprofunda no realismo mágico, no folclore, nas superstições, na incerteza que até mesmo quem acredita tem. Num futuro em que uma jovem capelobo trilha seu caminho enfrentando ciborgues e lobisomens estrangeiros, ecoa Bacurau e O auto da Compadecida, ouve-se canções da África e os passos dos nativos desta terra colonizada por europeus e seus demônios. É um sertãopunk que se arma de afrofuturismo e se vale da história brasileira. É ficção científica em sua camada mais fina e fantasia e horror na mais grossa.
E é decolonial.
Ignorar nossas raízes — muitas vezes não tão boas — não é sertãopunk.
Vestir acessórios da cultura nordestina num androide não é sertãopunk.
Cyberpunk e seus inúmeros derivados situados em qualquer um dos nove estados nordestinos não é sertãopunk.
Levar nordestinos para o espaço também não é sertãopunk.
Não é sobre nordestinos ocupando espaços, e sim vivendo em seus espaços. E o espaço de um nordestino é onde ele puder chamar de casa.
Sertãopunk não é estética. Nunca foi sobre estética. Sobre como nordestinos devem ou não se vestir, falar, agir, o nível de estereótipos que um personagem deve ter ou não ter para ser considerado nordestino o bastante para alguém.
O futuro pode ter androides e ciborgues.
Pode existir carros voadores movidos a óleo de dendê.
Pode ter tecnologias que permitam emular poderes de orixás.
Pode ser uma região tentando se erguer após anos de conflitos, com sobreviventes lutando contra uma nova onda de coronelismo e cangaço.
Ou não precisa ter nada disso.
Eu sempre defendi que o gênero sertãopunk comporta uma infinidade de ideias, boas e ruins, mas, para ser sertãopunk ela precisa dialogar com o povo que o inspira. Como movimento, é para inspirar que artistas criem suas versões do Nordeste, seja no passado, no presente ou no futuro. É um incremento em histórias de space opera, de distopia, utopia, horror cósmico, fantasia, etc.
Para ser sertãopunk, eu acredito que uma história precise, dentre todas as coisas, fundamentalmente:
- ter elementos de realismo mágico ou a presença da cultura popular;
- passar-se no futuro, independente se cyberpunk ou distópico, com presença ou ausência de elementos tecnológicos avançados;
- ser escrita por pessoa autora nordestina ou que more há muitos anos em algum estado do Nordeste;
- trazer temas sociais relevantes, que espelhem à contemporaneidade;
- ser decolonial, buscando sempre focar em cultura regional e se distanciar de convenções estéticas e culturais estrangeiras;
- não ter medo de incomodar a elite.
Não há crime em ganhar dinheiro com uma história sertãopunk. Quando publiquei algumas de minhas histórias, em especial as duas que compõem o que chamo de “saga da capelobo sem nome”, publiquei-as visando royalties. Mas eu soube me distanciar de qualquer proposta que não me entregasse, no mínimo, aquilo que eu pretendia com meus escritos. Quando minha presença, por exemplo, prejudicou o movimento, eu me afastei e passei a evitar qualquer tipo de contato com o sertãopunk — o que acabou coincidindo com a época que parei de escrever.
Se agora volto ao gênero, ainda que para reeditar textos envelhecidos, é porque algumas dessas histórias estavam espalhadas e sem publicação, havendo uma cobrança de alguns leitores por sua presença online.
Eu, como um dos criadores, sinto-me insatisfeito.
Como escritor, sinto-me realizado no que me propus a fazer.
Sertãopunk, por fim, é isso: um constante movimento de construção e desconstrução. Uma metamorfose ambulante, como diria o poeta baiano.
E o futuro muda o tempo todo, eu pontuaria.
A nós, meros escritores, só resta especular.
Até o momento, publiquei duas coletâneas de contos no gênero:




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